Balada de Madame Frigidaire - Belchior
Colaboração de Suelene de Paula Filgueiras
Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia, dei bandeira!
e ao por fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!
Ora! desde muito adolescente me arrepio ante empregada debutante.
Uma elétrica doméstica então... Que sex-appeal! Dá-me o frio na barriga!
Essa deusa da fertilidade, ready made a la Duchamp, já passou de minha amante
Virou super-star, a mulher ideal, mais que mãe, mais que a outra... Puta amiga!
Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope se cansaram de dizer:
Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, Família pra quem já tem frigidaire?
É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher.
Eu me confundo, madame! E a classe média que mame se o céu, a prazo, se der!
Que brancorno abre e fecha sensual dessa Nossa Senhora Ascéptica!
Com ela eu saio e traio a televisão, rainha minha e de vocês.
Dona frigidaire me come... But no kids double income! Filho compromete a estética!
Como Edipo-Rei momo, como e tomo tudo dela... Deleites da frigidez!
Inventores de Madame Frigidaire, peço bis! Muito obrigado!
Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do país.
E um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado.
Queira Deus que no fim da orgia, já de cabecinha fria, eu leve um doce gelado!
Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope, se cansaram de dizer:
- Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, e Família pra quem já tem frigidaire?
É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher...
Mas que trocadilho infame! La vraie Ballade des Dames du Temps Jadis... au contraire!
Você é senhor ou escravo do relógio?
Pelos alunos: Juliana Joca e Victor Eleutério.
"Quando falo do tempo é porque ele já não existe".
Quando se "tem" tempo é porque já não é "livre".
(Baudrillard)
Matéria Folha de São Paulo
Folha de São Paulo – Domingo, 19 de Setembro de 2010
Vanessa vê TV
No dia 7 de setembro, o canal A&E estreou o primeiro reality show de horror da televisão: “Hoarders”, que em português ganhou um título mais genérico: “Obssessivos-compulsivos” (terça, às 22h; classificação não informada).
Quem, a julgar pelo título, aguardou ansiosamente a exibição, afofou as almofadas três vezes e preparou-se para ver um programa sobre germofóbicos (ou metódicos, ou repetidores) deve ter sofrido um choque. As cenas eram apavorantes.
“Hoarders” ou “colecionistas” são acumuladores compulsivos de tralhas, pessoas incapazes de se desfazer dos objetos mais inúteis.
É gente que junta cadarços puídos, latas vazias, tábuas, jornais, disquetes e até mesmo anéis de latinhas de refrigerante.
Afinal de contas, “quem guarda tem”, dizia minha tia Lucila. “Ratos”, eu completo. Os dois casos do primeiro episódio são de tragédias domésticas, como o casal que perde a custódia dos filhos por conta da insalubridade do lar e a esposa que fratura o braço e sofre um ataque cardíaco por culpa da tranqueira do marido.
Uma das justificativas mais usadas pelos entulhadores é o valor sentimental, mesmo que seja de uma folha em branco. No programa, um sujeito levou quatro horas para examinar uma caixa em busca de coisas para descartar. Desistiu.
São discípulos modernos dos irmãos Langley e Homer Collyer, que, os anos 1940, acumularam 180 toneladas de lixo (ou 163 toneladas cúbicas) no sobrado onde moravam, no Harlem. Entre os objetos guardados “por precaução” estavam candelabros, carrinhos de bebê enferrujados, máquinas de raios X, piano de cauda, automóveis, mofo e três décadas de todos os jornais de Nova York.
Homer era cego, mas Langley estocava os periódicos na esperança de que um dia pudesse lê-los. Além disso, Homer era paralítico e dependia do irmão para alimentá-lo.
O fim dos Collyer condiz com a sina dos entulhadores da série, embora em nível extremo: impossibilitados de andar pela casa, passaram a cavar túneis por entre o lixo e fazer andaimes sobre as pilhas.
Um dia, Langley tropeçou e foi soterrado. Seu corpo foi encontrado a três metros do irmão, que morreu de fome, mas foram necessários19 dias de trabalho para chegar até ele, retirando as cem toneladas de lixo que os separavam.
Por Vanessa Bárbara
vanessa.barbara@uol.com.br
Vanessa vê TV
No dia 7 de setembro, o canal A&E estreou o primeiro reality show de horror da televisão: “Hoarders”, que em português ganhou um título mais genérico: “Obssessivos-compulsivos” (terça, às 22h; classificação não informada).
Quem, a julgar pelo título, aguardou ansiosamente a exibição, afofou as almofadas três vezes e preparou-se para ver um programa sobre germofóbicos (ou metódicos, ou repetidores) deve ter sofrido um choque. As cenas eram apavorantes.
“Hoarders” ou “colecionistas” são acumuladores compulsivos de tralhas, pessoas incapazes de se desfazer dos objetos mais inúteis.
É gente que junta cadarços puídos, latas vazias, tábuas, jornais, disquetes e até mesmo anéis de latinhas de refrigerante.
Afinal de contas, “quem guarda tem”, dizia minha tia Lucila. “Ratos”, eu completo. Os dois casos do primeiro episódio são de tragédias domésticas, como o casal que perde a custódia dos filhos por conta da insalubridade do lar e a esposa que fratura o braço e sofre um ataque cardíaco por culpa da tranqueira do marido.
Uma das justificativas mais usadas pelos entulhadores é o valor sentimental, mesmo que seja de uma folha em branco. No programa, um sujeito levou quatro horas para examinar uma caixa em busca de coisas para descartar. Desistiu.
São discípulos modernos dos irmãos Langley e Homer Collyer, que, os anos 1940, acumularam 180 toneladas de lixo (ou 163 toneladas cúbicas) no sobrado onde moravam, no Harlem. Entre os objetos guardados “por precaução” estavam candelabros, carrinhos de bebê enferrujados, máquinas de raios X, piano de cauda, automóveis, mofo e três décadas de todos os jornais de Nova York.
Homer era cego, mas Langley estocava os periódicos na esperança de que um dia pudesse lê-los. Além disso, Homer era paralítico e dependia do irmão para alimentá-lo.
O fim dos Collyer condiz com a sina dos entulhadores da série, embora em nível extremo: impossibilitados de andar pela casa, passaram a cavar túneis por entre o lixo e fazer andaimes sobre as pilhas.
Um dia, Langley tropeçou e foi soterrado. Seu corpo foi encontrado a três metros do irmão, que morreu de fome, mas foram necessários19 dias de trabalho para chegar até ele, retirando as cem toneladas de lixo que os separavam.
Por Vanessa Bárbara
vanessa.barbara@uol.com.br