Conferência Internacional com Michel Maffesoli
O Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UECE, em parceria com o Instituto Norberto Bobbio, está promovendo um evento em que a conferência de abertura será O TEMPO DAS TRIBOS E A PÓS-MODERNIDADE, com o Emérito Professor Doutor MICHEL MAFFESOLI, da Université René Descartes, Paris V, Sorbonne, no dia 5 de setembro de 2011.
Gente, imperdível!!! Tem que se inscrever no site do evento:
http://www.uece.br/eventos/conferenciamaffesoli/
Deseducação virtual - Contardo Calligaris
Artigo publicado no Caderno Mais ! do Jornal Folha de São Paulo em 25.10.1998
Oitenta por cento dos americanos que hoje planejam comprar um computador alegam a educação de suas crianças como razão principal da aquisição. Noventa por cento dos eleitores americanos estão convencidos de que escolas munidas de computadores para os alunos proporcionam uma melhor educação. Por isso, 61% deles seriam favoráveis a um imposto federal para acelerar a introdução da informática nas escolas.
Em 1995, a Associação Americana dos Administradores de Escolas publicou uma pesquisa que perguntava a pais, professores e público quais talentos seriam decisivos para os estudantes do próximo século. A competência em informática e tecnologia das mídia apareceu em terceiro lugar, logo após as competências básicas (ler, escrever e fazer contas) e os "bons hábitos de trabalho".
Mais inquietante: entre os dez programas para crianças que foram best seller nos EUA em 1996, quatro eram destinados a crianças a partir dos três anos de idade. Existem hoje programas de computador para nenês de 18 meses. Estes fatos são lembrados por Jane Healy no começo de seu novo livro "Failure to Connect: How Computers Affect Our Children's Minds - For Better and Worse" ("Fracasso em Conectar: Como os Computadores Afetam a Mente de Nossas Crianças - Para o Melhor e o Pior", Ed. Simon & Schuster).
É suficiente para estabelecer de maneira convincente que reina hoje um lugar comum cultural, segundo o qual os computadores seriam indiscriminadamente bons para as crianças. Quanto mais e quanto mais cedo pudermos expor nossos rebentos à magia da tela, tanto melhor -assim parecem pensar pais e educadores de hoje. Há várias razões para isso.
Sem dúvida, faz tempo que os pais ouvem dizer que o acesso futuro ao mercado do trabalho será condicionado à competência informática.
Quem não souber usar computador irá para o brejo, nos dizem - esquecendo de acrescentar que a competência necessária pode ser adquirida em uma semana por qualquer adulto que saiba pensar (Healey, aliás, mostra que o acesso a esta competência não é nem sequer mais rápido para crianças que usaram computadores na escola).
Outra razão, mais importante, é ideológica. No espaço de duas décadas, o computador conquistou a aprovação pedagógica do público (leigo ou não). A coisa começou em 1980, quando Seymour Papert publicou seu famoso livro "Mindstorms: Children, Computers, and Powerful Ideas" ("Tempestades da Mente: Crianças, Computadores e Idéias Poderosas"). Nele, Papert apresentava o sistema Logo, uma linguagem simples, com a qual as crianças do futuro se tornariam não simples usuários de computadores, mas verdadeiros programadores. O sistema permitia levar qualquer criança a programar os movimentos de uma tartaruga para compor infinitas geometrias.
Desde esta época, aliás, as fortunas educativas do computador casaram definitivamente com o construtivismo, ou seja, com a idéia que é melhor e mais eficiente aprender colaborando na construção do saber do que incorporando noções já constituídas.
Em outras palavras, o saber deve ser construído pela criança, não herdado ou transmitido. O construtivismo é responsável pela desaparição (ou quase) dos livros de texto e referência. Também é o culpado pelo drama de inúmeras famílias modernas que ocorre quando as crianças recebem como tema de casa misteriosos "projetos de pesquisa" sobre temas dos quais elas ignoram tudo.
O computador é o coadjuvante perfeito nesta empreitada. Facilita o acesso às informações e mantém o sentimento (ou a ilusão) de uma ativa participação na produção do saber, quer seja pela atividade mecânica de procura, quer seja pelo aspecto lúdico de seu uso. Construtivismo e computador vieram assim tocar juntos uma musiquinha perfeita para os ouvidos do individualismo moderno: não devemos aprender nada de ninguém, pois somos, em nossa lúdica livre atividade, a fonte de todo saber e sabedoria.
Na época, eu fui absolutamente seduzido. Em 81 ou 82 (não lembro direito), Papert viajou a Paris para apresentar seu livro e, sobretudo, seu projeto pedagógico. Naquela ocasião, ele encontrou um pequeno grupo de psicanalistas, do qual eu fazia parte, que se interessava pelos efeitos psicológicos das novas tecnologias. Depois de uma hora em uma suíte de hotel transformada em laboratório de computação, lembro que consegui fazer que minha tartaruga (o cursor ativo do sistema Logo) traçasse um triângulo perfeito. Que maravilha! Enfim, quer seja graças à demonstração animada pela fé de Papert, quer seja pela leitura de seu livro, saí daquele encontro entusiasmado.
Nossas repentinas simpatias construtivistas encontraram, na época, o mais tétrico pessimismo antitecnológico, classicamente europeu. A maioria de nossos colegas previa que as crianças, se fossem educadas por estes instrumentos infernais (os computadores), se tornariam rapidamente psicóticas.
De fato, esta exagerada preocupação mal escondia uma resistência ideológica em defesa da tradição e das hierarquias mais tradicionais na transmissão do saber. Defender construtivismo e computadores parecia então uma atitude moderna e progressista. No entanto, o balanço destas duas últimas décadas é que nem o construtivismo nem os computadores fizeram milagres. Mas que também não há razão para voltar às pedagogias mais sombriamente hierárquicas ou expulsar os computadores da casa e da escola.
O livro de Healey justamente é uma voz sábia que escapa à alternativa entre otimismo tecnocrático e nostalgias ruralistas. Ele não é nem um panfleto a favor ou contra a tecnologia nem uma obra propriamente teórica. É sobretudo um esforço de bom senso. Pedagogos e pais encontrarão uma série de recomendações explícitas bem fundadas e muito apropriadas. Por exemplo: as crianças até os sete anos não precisam e não deveriam ser entregues às virtudes educativas dos computadores -nada de PC antes do primário.
O tempo de uso do computador para uma criança deve ser controlado. Uma hora por dia parece razoável, por motivos tanto físicos (vista, posição) quanto educativos. É absurdo pensar que qualquer estupidez computadorizada seja necessariamente melhor do que um bom programa de TV; este é um delírio hiperconstrutivista, segundo o qual uma idiotice livremente inventada ou criada seria sempre melhor do que qualquer coisa ensinada ou mais passivamente contemplada.
Em suma, nos anos 50 os pais de classe média que não tinham babá e deviam ambos trabalhar acolheram a televisão como um milagre. Podiam confiar as crianças à tela que se encarregaria de educá-las, informá-las, abrir para elas o mundo inteiro. A virtude educativa da televisão chegou até a inspirar projetos de uso da TV na própria sala de aula. Este idílio acabou logo: já nos anos 60 a babá luminosa se revelou (dizem) uma bruxa: alienava as crianças, as adequava a modelos decididos por escusos poderes ideológicos, sem contar que não podia ser muito boa para os olhos.
Tornou-se difícil, desde então, confiar nossos filhos e filhas à televisão sem experimentar uma certa culpa. O computador pareceu resolver estas dificuldades. Era uma nova tela, com toda a bola da TV nos anos 50 e na qual podíamos confiar, pois não só educava, abria ao mundo etc., mas sobretudo era interativa. Fim da alienação das crianças.
Fim da culpa parental. Era inevitável que os pais e os pedagogos acreditassem em tanta sorte. Ora, o livro de Healy nós dá outra má notícia: o computador também não é a babá perfeita. Vai ser necessário mesmo sacrificar um pouco de tempo e sentar com as crianças para conversar.
Contardo Calligaris é psicanalista e ensaísta, autor de "Hello Brasil" (Escuta) e "Crônicas do Individualismo Cotidiano" (Ática).
Oitenta por cento dos americanos que hoje planejam comprar um computador alegam a educação de suas crianças como razão principal da aquisição. Noventa por cento dos eleitores americanos estão convencidos de que escolas munidas de computadores para os alunos proporcionam uma melhor educação. Por isso, 61% deles seriam favoráveis a um imposto federal para acelerar a introdução da informática nas escolas.
Em 1995, a Associação Americana dos Administradores de Escolas publicou uma pesquisa que perguntava a pais, professores e público quais talentos seriam decisivos para os estudantes do próximo século. A competência em informática e tecnologia das mídia apareceu em terceiro lugar, logo após as competências básicas (ler, escrever e fazer contas) e os "bons hábitos de trabalho".
Mais inquietante: entre os dez programas para crianças que foram best seller nos EUA em 1996, quatro eram destinados a crianças a partir dos três anos de idade. Existem hoje programas de computador para nenês de 18 meses. Estes fatos são lembrados por Jane Healy no começo de seu novo livro "Failure to Connect: How Computers Affect Our Children's Minds - For Better and Worse" ("Fracasso em Conectar: Como os Computadores Afetam a Mente de Nossas Crianças - Para o Melhor e o Pior", Ed. Simon & Schuster).
É suficiente para estabelecer de maneira convincente que reina hoje um lugar comum cultural, segundo o qual os computadores seriam indiscriminadamente bons para as crianças. Quanto mais e quanto mais cedo pudermos expor nossos rebentos à magia da tela, tanto melhor -assim parecem pensar pais e educadores de hoje. Há várias razões para isso.
Sem dúvida, faz tempo que os pais ouvem dizer que o acesso futuro ao mercado do trabalho será condicionado à competência informática.
Quem não souber usar computador irá para o brejo, nos dizem - esquecendo de acrescentar que a competência necessária pode ser adquirida em uma semana por qualquer adulto que saiba pensar (Healey, aliás, mostra que o acesso a esta competência não é nem sequer mais rápido para crianças que usaram computadores na escola).
Outra razão, mais importante, é ideológica. No espaço de duas décadas, o computador conquistou a aprovação pedagógica do público (leigo ou não). A coisa começou em 1980, quando Seymour Papert publicou seu famoso livro "Mindstorms: Children, Computers, and Powerful Ideas" ("Tempestades da Mente: Crianças, Computadores e Idéias Poderosas"). Nele, Papert apresentava o sistema Logo, uma linguagem simples, com a qual as crianças do futuro se tornariam não simples usuários de computadores, mas verdadeiros programadores. O sistema permitia levar qualquer criança a programar os movimentos de uma tartaruga para compor infinitas geometrias.
Desde esta época, aliás, as fortunas educativas do computador casaram definitivamente com o construtivismo, ou seja, com a idéia que é melhor e mais eficiente aprender colaborando na construção do saber do que incorporando noções já constituídas.
Em outras palavras, o saber deve ser construído pela criança, não herdado ou transmitido. O construtivismo é responsável pela desaparição (ou quase) dos livros de texto e referência. Também é o culpado pelo drama de inúmeras famílias modernas que ocorre quando as crianças recebem como tema de casa misteriosos "projetos de pesquisa" sobre temas dos quais elas ignoram tudo.
O computador é o coadjuvante perfeito nesta empreitada. Facilita o acesso às informações e mantém o sentimento (ou a ilusão) de uma ativa participação na produção do saber, quer seja pela atividade mecânica de procura, quer seja pelo aspecto lúdico de seu uso. Construtivismo e computador vieram assim tocar juntos uma musiquinha perfeita para os ouvidos do individualismo moderno: não devemos aprender nada de ninguém, pois somos, em nossa lúdica livre atividade, a fonte de todo saber e sabedoria.
Na época, eu fui absolutamente seduzido. Em 81 ou 82 (não lembro direito), Papert viajou a Paris para apresentar seu livro e, sobretudo, seu projeto pedagógico. Naquela ocasião, ele encontrou um pequeno grupo de psicanalistas, do qual eu fazia parte, que se interessava pelos efeitos psicológicos das novas tecnologias. Depois de uma hora em uma suíte de hotel transformada em laboratório de computação, lembro que consegui fazer que minha tartaruga (o cursor ativo do sistema Logo) traçasse um triângulo perfeito. Que maravilha! Enfim, quer seja graças à demonstração animada pela fé de Papert, quer seja pela leitura de seu livro, saí daquele encontro entusiasmado.
Nossas repentinas simpatias construtivistas encontraram, na época, o mais tétrico pessimismo antitecnológico, classicamente europeu. A maioria de nossos colegas previa que as crianças, se fossem educadas por estes instrumentos infernais (os computadores), se tornariam rapidamente psicóticas.
De fato, esta exagerada preocupação mal escondia uma resistência ideológica em defesa da tradição e das hierarquias mais tradicionais na transmissão do saber. Defender construtivismo e computadores parecia então uma atitude moderna e progressista. No entanto, o balanço destas duas últimas décadas é que nem o construtivismo nem os computadores fizeram milagres. Mas que também não há razão para voltar às pedagogias mais sombriamente hierárquicas ou expulsar os computadores da casa e da escola.
O livro de Healey justamente é uma voz sábia que escapa à alternativa entre otimismo tecnocrático e nostalgias ruralistas. Ele não é nem um panfleto a favor ou contra a tecnologia nem uma obra propriamente teórica. É sobretudo um esforço de bom senso. Pedagogos e pais encontrarão uma série de recomendações explícitas bem fundadas e muito apropriadas. Por exemplo: as crianças até os sete anos não precisam e não deveriam ser entregues às virtudes educativas dos computadores -nada de PC antes do primário.
O tempo de uso do computador para uma criança deve ser controlado. Uma hora por dia parece razoável, por motivos tanto físicos (vista, posição) quanto educativos. É absurdo pensar que qualquer estupidez computadorizada seja necessariamente melhor do que um bom programa de TV; este é um delírio hiperconstrutivista, segundo o qual uma idiotice livremente inventada ou criada seria sempre melhor do que qualquer coisa ensinada ou mais passivamente contemplada.
Em suma, nos anos 50 os pais de classe média que não tinham babá e deviam ambos trabalhar acolheram a televisão como um milagre. Podiam confiar as crianças à tela que se encarregaria de educá-las, informá-las, abrir para elas o mundo inteiro. A virtude educativa da televisão chegou até a inspirar projetos de uso da TV na própria sala de aula. Este idílio acabou logo: já nos anos 60 a babá luminosa se revelou (dizem) uma bruxa: alienava as crianças, as adequava a modelos decididos por escusos poderes ideológicos, sem contar que não podia ser muito boa para os olhos.
Tornou-se difícil, desde então, confiar nossos filhos e filhas à televisão sem experimentar uma certa culpa. O computador pareceu resolver estas dificuldades. Era uma nova tela, com toda a bola da TV nos anos 50 e na qual podíamos confiar, pois não só educava, abria ao mundo etc., mas sobretudo era interativa. Fim da alienação das crianças.
Fim da culpa parental. Era inevitável que os pais e os pedagogos acreditassem em tanta sorte. Ora, o livro de Healy nós dá outra má notícia: o computador também não é a babá perfeita. Vai ser necessário mesmo sacrificar um pouco de tempo e sentar com as crianças para conversar.
Contardo Calligaris é psicanalista e ensaísta, autor de "Hello Brasil" (Escuta) e "Crônicas do Individualismo Cotidiano" (Ática).
Cool Hunters
Lembram quando a gente falou em sala sobre os Cool Hunters, ou caçadores do cool? Pois aqui tem um vídeo muito bom pra gente compartilhar.
Texto do aluno Francisco Jurandir de Souza
Articulação excelente do nosso colega Jurandir entre os textos: Vida Líquida (de Zygmunt Bauman) e Leônia, do livro Cidades Invisíveis (de Ítalo calvino)
O texto de Bauman, retrata muito bem a vida de todos os seres humanos num mundo capitalista do séc. XXI, dito moderno ou contemporâneo, onde a cultura de consumo impregnada na mente das pessoas, aguça uma busca desenfreada para saciar suas necessidades e desejos objetivos e subjetivos, conscientes ou inconscientes, numa velocidade que já não permite nem mesmo identificar o que de fato se busca na verdade.
Segundo Bauman a “vida líquida” e a “modernidade líquida” estão intimamente ligadas e que a sociedade líquido-moderna “é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas das formas de agir”. (grifo meu)
Recentemente, ouvi de uma jovem de vinte anos a seguinte frase: “Eu não sei mais o que vou fazer da minha vida”, numa fala que expressa implicitamente angústia, dúvida e desamparo, característicos do mundo moderno, onde as pessoas se sentem sozinhas, abandonadas e inseguras, num claro contraponto ao mundo tradicional em que as instituições, principalmente a família, davam condições e normas de suporte à existência. A despeito de sua condição de vida, esta jovem não está sozinha quanto aos sentimentos expressados, ouço de muitos jovens depoimentos da mesma natureza, afinal, são manifestações de quem vive no âmago do mundo moderno; são muitas as incertezas e informações ambíguas que a vida líquida apresenta, numa fase de transição da humanidade que avançou muito na tecnologia das coisas e ainda muito pouco na tecnologia das pessoas para viver e conviver com a liquidez da vida.
Nesse contexto, cada um se sente como se estivesse andando em uma escada rolante, numa velocidade constante apenas para se manter no mesmo lugar; se diminuir a velocidade, vai andar paradoxalmente para trás e, se quiser avançar, terá de correr, se ainda tiver recursos para tanto.
Esta metáfora da escada, considerando o ambiente do mundo capitalista, de vida moderna e de vida líquida, possibilita explorar outras dimensões das idéias de Bauman. Se você não pára, como vai consolidar sua experiência de vida? Mas, se parar, você vai ser colocado para trás, a escada rolante da vida se encarrega disso, o que significa que você será um marginal do processo produtivo, ou seja, sem utilidade, inútil, quem sabe um lixo humano, apesar do tempo que se passou na escada produzindo, andando no ritmo certo.
Mas, apenas se manter na mesma posição não convém, pois existe uma competição muito grande nessa escada do mundo moderno, em particular no mundo do trabalho; você não está sozinho, a concorrência fará tudo para promover uma “destruição criativa” do que aí está posto, sem se importar de que aí existe um ser humano, nessa corrida, ignorando que “aquilo que essa criação destrói são outros modos de vida e, de forma indireta, os seres humanos que os praticam”.
As incertezas são muitas, prognósticos seguros são inimagináveis: “Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos,os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades”. (grifo meu)
A incapacidade assombra o homem moderno, a vida líquida gera sofrimento e adoece, pensar em torna-se “lixo”, parar ou andar para trás são coisas que ninguém deseja, nem que o objetivo seja ajudar alguém que caiu, pois isso significa se distanciar da realização de desejos, sonhos ou projeto de felicidade individuais. O lixo que não se quer, é amontoado ao redor de todos, traduzidos m desempregados, viciados, famintos, abandonados pela sociedade líquida, marginalizados de toda sorte: “quanto mais os lixos crescem em altura, mais paira o perigo das derrocadas: basta que uma lata, um velho pneu ou um garrafão rebole para que a avalanche aconteça”, como diz Ítalo Calvino.
Mas, a latinha que é citada por Calvino pode ser um lixo não exterior, e sim interior, criado pelo mundo moderno e incutido na cabeça das pessoas, trazidos nos ideais impostos; e que, quando não são alcançados, geram muitas decepções, frustrações e profundos sofrimentos de toda ordem.
Contudo, a metáfora da escada continua, a vida continua em um eterno recomeçar; as incertezas do mundo líquido-moderno são muitas; as experiências pessoais não significam muita coisa; você nunca está preparado. E se faltar energia nessa escada que você está? Avalanches de pessoas são transformadas em sucatas humanas, haja vista o que está acontecendo no mundo real japonês, neste momento. Como disse Bauman: “em um piscar de olhos...”, e não caiu só uma latinha, ou, melhor dizendo, não caiu só uma pessoa, até o momento se fala em mais de cinco mil pessoas mortas, consequência da revolta da Natureza e da ação do homem. Tudo volta ao zero, se transforma; os paradigmas precisam ser revistos, bem como o projeto de felicidade que está a justificar tudo o que está acontecendo na humanidade. Será que prazer e felicidade são deste mundo? Será do Reino de Deus?
Em Coríntios 2, Paulo escreve: “Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte”. Já somos felizes e não sabemos? Ou nossos desejos infindáveis nos escravizam?
Haverá o dia em que a Ciência e a Religião se unirão na busca desta resposta que transcende a cultura de consumo material, desenvolvendo também a cultura de consumo espiritual, como forma de responder qual o sentido de vida num mundo líquido-moderno?
O texto de Bauman, retrata muito bem a vida de todos os seres humanos num mundo capitalista do séc. XXI, dito moderno ou contemporâneo, onde a cultura de consumo impregnada na mente das pessoas, aguça uma busca desenfreada para saciar suas necessidades e desejos objetivos e subjetivos, conscientes ou inconscientes, numa velocidade que já não permite nem mesmo identificar o que de fato se busca na verdade.
Segundo Bauman a “vida líquida” e a “modernidade líquida” estão intimamente ligadas e que a sociedade líquido-moderna “é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas das formas de agir”. (grifo meu)
Recentemente, ouvi de uma jovem de vinte anos a seguinte frase: “Eu não sei mais o que vou fazer da minha vida”, numa fala que expressa implicitamente angústia, dúvida e desamparo, característicos do mundo moderno, onde as pessoas se sentem sozinhas, abandonadas e inseguras, num claro contraponto ao mundo tradicional em que as instituições, principalmente a família, davam condições e normas de suporte à existência. A despeito de sua condição de vida, esta jovem não está sozinha quanto aos sentimentos expressados, ouço de muitos jovens depoimentos da mesma natureza, afinal, são manifestações de quem vive no âmago do mundo moderno; são muitas as incertezas e informações ambíguas que a vida líquida apresenta, numa fase de transição da humanidade que avançou muito na tecnologia das coisas e ainda muito pouco na tecnologia das pessoas para viver e conviver com a liquidez da vida.
Nesse contexto, cada um se sente como se estivesse andando em uma escada rolante, numa velocidade constante apenas para se manter no mesmo lugar; se diminuir a velocidade, vai andar paradoxalmente para trás e, se quiser avançar, terá de correr, se ainda tiver recursos para tanto.
Esta metáfora da escada, considerando o ambiente do mundo capitalista, de vida moderna e de vida líquida, possibilita explorar outras dimensões das idéias de Bauman. Se você não pára, como vai consolidar sua experiência de vida? Mas, se parar, você vai ser colocado para trás, a escada rolante da vida se encarrega disso, o que significa que você será um marginal do processo produtivo, ou seja, sem utilidade, inútil, quem sabe um lixo humano, apesar do tempo que se passou na escada produzindo, andando no ritmo certo.
Mas, apenas se manter na mesma posição não convém, pois existe uma competição muito grande nessa escada do mundo moderno, em particular no mundo do trabalho; você não está sozinho, a concorrência fará tudo para promover uma “destruição criativa” do que aí está posto, sem se importar de que aí existe um ser humano, nessa corrida, ignorando que “aquilo que essa criação destrói são outros modos de vida e, de forma indireta, os seres humanos que os praticam”.
As incertezas são muitas, prognósticos seguros são inimagináveis: “Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos,os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades”. (grifo meu)
A incapacidade assombra o homem moderno, a vida líquida gera sofrimento e adoece, pensar em torna-se “lixo”, parar ou andar para trás são coisas que ninguém deseja, nem que o objetivo seja ajudar alguém que caiu, pois isso significa se distanciar da realização de desejos, sonhos ou projeto de felicidade individuais. O lixo que não se quer, é amontoado ao redor de todos, traduzidos m desempregados, viciados, famintos, abandonados pela sociedade líquida, marginalizados de toda sorte: “quanto mais os lixos crescem em altura, mais paira o perigo das derrocadas: basta que uma lata, um velho pneu ou um garrafão rebole para que a avalanche aconteça”, como diz Ítalo Calvino.
Mas, a latinha que é citada por Calvino pode ser um lixo não exterior, e sim interior, criado pelo mundo moderno e incutido na cabeça das pessoas, trazidos nos ideais impostos; e que, quando não são alcançados, geram muitas decepções, frustrações e profundos sofrimentos de toda ordem.
Contudo, a metáfora da escada continua, a vida continua em um eterno recomeçar; as incertezas do mundo líquido-moderno são muitas; as experiências pessoais não significam muita coisa; você nunca está preparado. E se faltar energia nessa escada que você está? Avalanches de pessoas são transformadas em sucatas humanas, haja vista o que está acontecendo no mundo real japonês, neste momento. Como disse Bauman: “em um piscar de olhos...”, e não caiu só uma latinha, ou, melhor dizendo, não caiu só uma pessoa, até o momento se fala em mais de cinco mil pessoas mortas, consequência da revolta da Natureza e da ação do homem. Tudo volta ao zero, se transforma; os paradigmas precisam ser revistos, bem como o projeto de felicidade que está a justificar tudo o que está acontecendo na humanidade. Será que prazer e felicidade são deste mundo? Será do Reino de Deus?
Em Coríntios 2, Paulo escreve: “Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte”. Já somos felizes e não sabemos? Ou nossos desejos infindáveis nos escravizam?
Haverá o dia em que a Ciência e a Religião se unirão na busca desta resposta que transcende a cultura de consumo material, desenvolvendo também a cultura de consumo espiritual, como forma de responder qual o sentido de vida num mundo líquido-moderno?
Homem Moderno
“Gatinho de Cheshire”, começou, muito timidamente, por não saber se ele gostaria desse tratamento: ele, porém, apenas alargou um pouco mais o sorriso.
“Ótimo, até aqui está contente”, pensou Alice. E prosseguiu: “Você poderia me dizer, por favor, qual o caminho para sair daqui?”
“Depende muito de onde você quer chegar”, disse o Gato.
“Não me importa muito onde...” foi dizendo Alice.
“Nesse caso não faz diferença por qual caminho você vá”, disse o Gato.
“...desde que eu chegue a algum lugar”, acrescentou Alice, explicando.
“Oh, esteja certa de que isso ocorrerá”, falou o Gato, “desde que você caminhe o bastante.”
CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. 2 ed. São Paulo, 2000.
O homem moderno é um homem sem qualidades, ele é livre para construir sua narrativa biográfica, tendo o consumo como referência.
Profa. Marília Romero falando do texto de Sílvia Pimenta.
Experiência de Consumo
Vocês lembram, na primeira aula de Comportamento do Consumidor, quando a professora pediu para os alunos descreverem uma experiêcia de consumo?
Pois aqui temos um trabalho excelete do aluno Carlos Muniz, do horário CD. Parabéns Carlos!
EXPERIÊNCIA DE CONSUMO:
Esse não era o primeiro que eu tinha, mas era diferente de todos os outros; seria completo em tudo aquilo que meu amigos haviam falado que seus carros tinham; teria todos os equipamentos necessários para ser um bom carro; eu não deixaria escapar nada que tivesse sido lançado.
Mas não foi tão simples assim. Primeiro, passei na casa dos três melhores amigos com bons carros para ter uma primeira noção do que o carro tinha que ter para estar entre os mais vistos da vizinhança. Semanas depois, vendo e revendo, já tinha me decidido. Para ser o carro perfeito ele deveria ter: o aerofólio do carro do Tiago, os quais ele mostrava com orgulho, por ser o único dos amigos a ter; não podiam faltar os aros espelhados que tinham no do André, além do jeitão de carro de corrida do carro do Guilherme. Já podia até imaginar, seria tudo o que eu sempre quis na vida e não podia esperar nem mais um minuto por isso.
Chegando à loja, não demorou muito pra eu encontrar ele ali, parado na vitrine como quem olhava para mim, com todos os itens recomendados, brilhando mais que todo o resto da loja, que passava a não importar mais. Quase nem notei quando a atendente chamou perguntando se era aquele mesmo que eu queria; era como se não houvesse mais som algum e já desse pra imaginar o barulho do motor. A moça de cabelos enrolados e olhos claros me perguntava, com um sorriso no rosto, se era pra embrulhar pra presente, e eu, respondendo com um sorriso maior ainda, quase que gritando de entusiasmo, disse: “- Sim! Pode empacotar!”. E meus pais, que não podiam estar fora desse momento, olhando para a minha felicidade com o produto nas mãos, não puderam deixar de comprar. Era meu primeiro carro de controle remoto, com alcance sem limite de distância, ele iria até onde eu pudesse imaginar, o melhor presente aos seis anos de idade.
E aí? Vocês gostaram? Podem aguardar mais trabalhos da disciplina.
Pois aqui temos um trabalho excelete do aluno Carlos Muniz, do horário CD. Parabéns Carlos!
EXPERIÊNCIA DE CONSUMO:
Esse não era o primeiro que eu tinha, mas era diferente de todos os outros; seria completo em tudo aquilo que meu amigos haviam falado que seus carros tinham; teria todos os equipamentos necessários para ser um bom carro; eu não deixaria escapar nada que tivesse sido lançado.
Mas não foi tão simples assim. Primeiro, passei na casa dos três melhores amigos com bons carros para ter uma primeira noção do que o carro tinha que ter para estar entre os mais vistos da vizinhança. Semanas depois, vendo e revendo, já tinha me decidido. Para ser o carro perfeito ele deveria ter: o aerofólio do carro do Tiago, os quais ele mostrava com orgulho, por ser o único dos amigos a ter; não podiam faltar os aros espelhados que tinham no do André, além do jeitão de carro de corrida do carro do Guilherme. Já podia até imaginar, seria tudo o que eu sempre quis na vida e não podia esperar nem mais um minuto por isso.
Chegando à loja, não demorou muito pra eu encontrar ele ali, parado na vitrine como quem olhava para mim, com todos os itens recomendados, brilhando mais que todo o resto da loja, que passava a não importar mais. Quase nem notei quando a atendente chamou perguntando se era aquele mesmo que eu queria; era como se não houvesse mais som algum e já desse pra imaginar o barulho do motor. A moça de cabelos enrolados e olhos claros me perguntava, com um sorriso no rosto, se era pra embrulhar pra presente, e eu, respondendo com um sorriso maior ainda, quase que gritando de entusiasmo, disse: “- Sim! Pode empacotar!”. E meus pais, que não podiam estar fora desse momento, olhando para a minha felicidade com o produto nas mãos, não puderam deixar de comprar. Era meu primeiro carro de controle remoto, com alcance sem limite de distância, ele iria até onde eu pudesse imaginar, o melhor presente aos seis anos de idade.
E aí? Vocês gostaram? Podem aguardar mais trabalhos da disciplina.
Trechos retirados da música:
Eduardo e Mônica - Legião Urbana
"Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram.
(...)
Eduardo e Mônica eram nada parecidos
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
De Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava no esquema "escola, cinema
clube, televisão".
(...)
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato, e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar...
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar (nããão)
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular"
Balada de Madame Frigidaire - Belchior
Colaboração de Suelene de Paula Filgueiras
Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia, dei bandeira!
e ao por fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!
Ora! desde muito adolescente me arrepio ante empregada debutante.
Uma elétrica doméstica então... Que sex-appeal! Dá-me o frio na barriga!
Essa deusa da fertilidade, ready made a la Duchamp, já passou de minha amante
Virou super-star, a mulher ideal, mais que mãe, mais que a outra... Puta amiga!
Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope se cansaram de dizer:
Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, Família pra quem já tem frigidaire?
É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher.
Eu me confundo, madame! E a classe média que mame se o céu, a prazo, se der!
Que brancorno abre e fecha sensual dessa Nossa Senhora Ascéptica!
Com ela eu saio e traio a televisão, rainha minha e de vocês.
Dona frigidaire me come... But no kids double income! Filho compromete a estética!
Como Edipo-Rei momo, como e tomo tudo dela... Deleites da frigidez!
Inventores de Madame Frigidaire, peço bis! Muito obrigado!
Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do país.
E um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado.
Queira Deus que no fim da orgia, já de cabecinha fria, eu leve um doce gelado!
Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope, se cansaram de dizer:
- Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, e Família pra quem já tem frigidaire?
É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher...
Mas que trocadilho infame! La vraie Ballade des Dames du Temps Jadis... au contraire!
Você é senhor ou escravo do relógio?
Pelos alunos: Juliana Joca e Victor Eleutério.
"Quando falo do tempo é porque ele já não existe".
Quando se "tem" tempo é porque já não é "livre".
(Baudrillard)
Matéria Folha de São Paulo
Folha de São Paulo – Domingo, 19 de Setembro de 2010
Vanessa vê TV
No dia 7 de setembro, o canal A&E estreou o primeiro reality show de horror da televisão: “Hoarders”, que em português ganhou um título mais genérico: “Obssessivos-compulsivos” (terça, às 22h; classificação não informada).
Quem, a julgar pelo título, aguardou ansiosamente a exibição, afofou as almofadas três vezes e preparou-se para ver um programa sobre germofóbicos (ou metódicos, ou repetidores) deve ter sofrido um choque. As cenas eram apavorantes.
“Hoarders” ou “colecionistas” são acumuladores compulsivos de tralhas, pessoas incapazes de se desfazer dos objetos mais inúteis.
É gente que junta cadarços puídos, latas vazias, tábuas, jornais, disquetes e até mesmo anéis de latinhas de refrigerante.
Afinal de contas, “quem guarda tem”, dizia minha tia Lucila. “Ratos”, eu completo. Os dois casos do primeiro episódio são de tragédias domésticas, como o casal que perde a custódia dos filhos por conta da insalubridade do lar e a esposa que fratura o braço e sofre um ataque cardíaco por culpa da tranqueira do marido.
Uma das justificativas mais usadas pelos entulhadores é o valor sentimental, mesmo que seja de uma folha em branco. No programa, um sujeito levou quatro horas para examinar uma caixa em busca de coisas para descartar. Desistiu.
São discípulos modernos dos irmãos Langley e Homer Collyer, que, os anos 1940, acumularam 180 toneladas de lixo (ou 163 toneladas cúbicas) no sobrado onde moravam, no Harlem. Entre os objetos guardados “por precaução” estavam candelabros, carrinhos de bebê enferrujados, máquinas de raios X, piano de cauda, automóveis, mofo e três décadas de todos os jornais de Nova York.
Homer era cego, mas Langley estocava os periódicos na esperança de que um dia pudesse lê-los. Além disso, Homer era paralítico e dependia do irmão para alimentá-lo.
O fim dos Collyer condiz com a sina dos entulhadores da série, embora em nível extremo: impossibilitados de andar pela casa, passaram a cavar túneis por entre o lixo e fazer andaimes sobre as pilhas.
Um dia, Langley tropeçou e foi soterrado. Seu corpo foi encontrado a três metros do irmão, que morreu de fome, mas foram necessários19 dias de trabalho para chegar até ele, retirando as cem toneladas de lixo que os separavam.
Por Vanessa Bárbara
vanessa.barbara@uol.com.br
Vanessa vê TV
No dia 7 de setembro, o canal A&E estreou o primeiro reality show de horror da televisão: “Hoarders”, que em português ganhou um título mais genérico: “Obssessivos-compulsivos” (terça, às 22h; classificação não informada).
Quem, a julgar pelo título, aguardou ansiosamente a exibição, afofou as almofadas três vezes e preparou-se para ver um programa sobre germofóbicos (ou metódicos, ou repetidores) deve ter sofrido um choque. As cenas eram apavorantes.
“Hoarders” ou “colecionistas” são acumuladores compulsivos de tralhas, pessoas incapazes de se desfazer dos objetos mais inúteis.
É gente que junta cadarços puídos, latas vazias, tábuas, jornais, disquetes e até mesmo anéis de latinhas de refrigerante.
Afinal de contas, “quem guarda tem”, dizia minha tia Lucila. “Ratos”, eu completo. Os dois casos do primeiro episódio são de tragédias domésticas, como o casal que perde a custódia dos filhos por conta da insalubridade do lar e a esposa que fratura o braço e sofre um ataque cardíaco por culpa da tranqueira do marido.
Uma das justificativas mais usadas pelos entulhadores é o valor sentimental, mesmo que seja de uma folha em branco. No programa, um sujeito levou quatro horas para examinar uma caixa em busca de coisas para descartar. Desistiu.
São discípulos modernos dos irmãos Langley e Homer Collyer, que, os anos 1940, acumularam 180 toneladas de lixo (ou 163 toneladas cúbicas) no sobrado onde moravam, no Harlem. Entre os objetos guardados “por precaução” estavam candelabros, carrinhos de bebê enferrujados, máquinas de raios X, piano de cauda, automóveis, mofo e três décadas de todos os jornais de Nova York.
Homer era cego, mas Langley estocava os periódicos na esperança de que um dia pudesse lê-los. Além disso, Homer era paralítico e dependia do irmão para alimentá-lo.
O fim dos Collyer condiz com a sina dos entulhadores da série, embora em nível extremo: impossibilitados de andar pela casa, passaram a cavar túneis por entre o lixo e fazer andaimes sobre as pilhas.
Um dia, Langley tropeçou e foi soterrado. Seu corpo foi encontrado a três metros do irmão, que morreu de fome, mas foram necessários19 dias de trabalho para chegar até ele, retirando as cem toneladas de lixo que os separavam.
Por Vanessa Bárbara
vanessa.barbara@uol.com.br
Entrevista com Flávio Paiva
1. De acordo com o historiador Frances Phillippe Ariès a infância, percebida como uma etapa peculiar do desenvolvimento do sujeito, é um fenômeno recente, tipicamente moderno. Já Neil Postman, professor de Comunicação em Nova York, afirma que a infância instituída na modernidade está desaparecendo e aponta a televisão como causa desse fenômeno. O que você acha? A infância esta desaparecendo? A infância tem sofrido transformações? A que se devem? Quais são os traços que marcam/caracterizam a infância na contemporaneidade?
A rigor, essas teses se complementam porque tratam de elos do processo permanente de recontextualização da infância. Vejo esses estágios pelas lentes de quatro metáforas, duas comumente utilizadas por diversos pensadores e duas que eu criei para completar o ciclo pleno da sociabilidade infantil: a) na sociedade caçadora (pré-modernidade), a criança era tratada como um adulto pequeno; b) na sociedade jardineira (modernidade), meninas e meninas passaram a receber atenção diferenciada; c) na sociedade lenhadora (hipermodernidade), a referência de infância retoma o perfil adultizante, pelo viés do consumismo; d) na sociedade lavradora (caso se configure a tendência de ruptura para o social-ambientalismo), surgirá uma nova criança, menos terceirizada e mais integrada à relação da cultura com a natureza. Acredito que já temos a criança preparada para esse salto no comportamento da humanidade. O que está faltando é essa criança contar com um adulto à sua altura. O grande desafio contemporâneo é a busca de estilos de vida que comprometam menos os recursos naturais do planeta e as relações entre as pessoas.
2. Você é contra a Publicidade voltada para a criança ou seria concebível a existência de um discurso publicitário mais ético “voltado para o publico infantil”? Que características teria esse discurso?
É difícil falar em discurso ético da publicidade voltado para a criança, pois o grande problema da fala mercadológica das empresas, de seus produtos e marcas, quando dirigida a meninas e meninos, está exatamente na esfera da conduta social. Ou seja, de um lado, está um sedutor convicto, armado de toda sorte de recursos, trabalhados para maliciosamente produzir um desejo de compra; e do outro, está alguém crédulo, desarmado e sem os necessários parâmetros de julgamento, que tem o seu estado de latência invadido por mensagens de fortes apelos comerciais. É uma relação muito desigual, uma perversão tão grave quanto à pedofilia. A publicidade de produtos e serviços infantis deve ser dirigida aos adultos que cuidam de crianças. Tem um comercial do sabão OMO, que eu acho bem pensado, bem resolvido e, pelo que parece, é dirigido às mães. Ao lembrar que "se sujar faz bem", essa publicidade acaba prestando um serviço pedagógico a muitos adultos desavisados, que higienizam demais a vida infantil.
3. Como a Publicidade e o consumismo afetam a criança?
Na ânsia de aproveitar o poder de influência de compra das crianças, muitas empresas perdem completamente a compostura e por meio da publicidade praticam atos ilícitos de persuasão, como os de estimular a bajulação e falsidade (Chokito), a compra casada (McLanche Feliz) e a se deixar manipular por comandos imperativos (Candide Xuxa). Bombardeadas por esses incitamentos socialmente condenáveis, a criança é exposta à valorização da desonestidade nas relações, da vulnerabilidade cidadã e, acima de tudo, a ser uma consumidora e fazer o papel de promotora do consumo exagerado. Então, os efeitos da publicidade e do consumismo na criança manifestam-se em distorções psicológicas de acentuadas interferências nas dimensões sócio-políticas e culturais. As situações de constrangimento, causadas por esforços de vendas inadequados, também afetam de modo perverso o mundo infantil. No mês passado (abr/2010) a agência de viagens Trip&Fun, de São Paulo, foi bastante criticada pela polêmica promoção: “Se eu não for para a Disney vou ser um Pateta”. E o pior é que esse tipo de promoção, feita dentro das escolas, é um estímulo ao bullying. Além do sentido de “eu vou, você não vai”, esse tipo de propaganda ainda instiga os que viajam a ficar tirando onda com os que ficam, chamando-os de pateta. Mas a sociedade está despertando para esse tipo de violência à dignidade infantil e entidades como o Instituto Alana vêm dando efetivas contribuições nesse sentido.
4. O que é o Instituto Alana e que trabalho desenvolve?
O Alana é uma organização da sociedade civil, criada e presidida pela educadora Ana Lúcia Villela, que atua em quatro eixos associados ao tema da infância: tem o Espaço Alana (1) e o Centro de Formação Alana (2), no Jardim Pantanal, em São Paulo, o Projeto Criança e Consumo (3) e mais recentemente passou a apoiar o Instituto Brincante (4), um recanto de prática e teoria da brasilidade, localizado na Vila Madalena, e que tem como criadores Antônio Nóbrega e Rosane Almeida. Eu arriscaria dizer que a liga de todas essas iniciativas do Instituto Alana é a movimentação da educação e da cultura em favor de uma vida menos consumista e mais socialmente decente.
5. Você é jornalista, escritor, músico e um grande valorizador da cultura popular. A maior parte do trabalho que você desenvolve é em torno da temática da infância. O que você busca através desse trabalho?
Sempre tive a mania de viver, descrever literária e musicalmente a vida e depois juntar tudo novamente para viver além do cotidiano. Mas isso eu trago da minha infância e adolescência vivida no sertão, onde, durante o dia as pessoas trabalhavam na agricultura, na pecuária, no comércio, mas à noite refinavam a dureza da labuta tocando viola, contando histórias ou simplesmente contemplando a silhueta da caatinga à lua cheia. Sem contar com aquelas pessoas que abóiam, tangendo o gado, e as que trabalham cantando nas lavouras. Sou uma dessas pessoas e não é o fato de morar na cidade que me faz esquecer de praticar esses hábitos de plenitude humana. Gosto dos sons da cidade, da vida urbana, de morar em apartamento e tudo isso está incorporado na minha produção autoral. Entendo que os livros e as músicas que tenho feito para as crianças resultem de duas fontes de encantamento: uma, que chamo de paternidade criadora, e a outra, que não sei nem chamar, mas sinto que vem de uma vontade muito grande de contribuir para que essa meninada que está aí seja imaginativa o suficiente para superar a resistência dos adultos na conquista de um mundo mais próximo da metáfora do lavrador (pós-hipermodernidade). Em uma reflexão que publiquei na minha coluna semanal no Diário do Nordeste, explico porque, diferentemente de muitos pensadores que pregam a volta do “jardineiro”, eu defendo a figura do “lavrador” como referência civilizacional a ser alcançada: “O lavrador está mais afeito a respeitar à terra, a cultivar a simplicidade, a organicidade, a fazer a semeadura do que é preciso produzir para viver, a colher os frutos de uma relação integrada com a natureza e do uso da ciência e da tecnologia em favor do usufruto pleno do que a vida nos oferece” (DN, 3/9/2009). É isso o que busco com o meu trabalho.
A rigor, essas teses se complementam porque tratam de elos do processo permanente de recontextualização da infância. Vejo esses estágios pelas lentes de quatro metáforas, duas comumente utilizadas por diversos pensadores e duas que eu criei para completar o ciclo pleno da sociabilidade infantil: a) na sociedade caçadora (pré-modernidade), a criança era tratada como um adulto pequeno; b) na sociedade jardineira (modernidade), meninas e meninas passaram a receber atenção diferenciada; c) na sociedade lenhadora (hipermodernidade), a referência de infância retoma o perfil adultizante, pelo viés do consumismo; d) na sociedade lavradora (caso se configure a tendência de ruptura para o social-ambientalismo), surgirá uma nova criança, menos terceirizada e mais integrada à relação da cultura com a natureza. Acredito que já temos a criança preparada para esse salto no comportamento da humanidade. O que está faltando é essa criança contar com um adulto à sua altura. O grande desafio contemporâneo é a busca de estilos de vida que comprometam menos os recursos naturais do planeta e as relações entre as pessoas.
2. Você é contra a Publicidade voltada para a criança ou seria concebível a existência de um discurso publicitário mais ético “voltado para o publico infantil”? Que características teria esse discurso?
É difícil falar em discurso ético da publicidade voltado para a criança, pois o grande problema da fala mercadológica das empresas, de seus produtos e marcas, quando dirigida a meninas e meninos, está exatamente na esfera da conduta social. Ou seja, de um lado, está um sedutor convicto, armado de toda sorte de recursos, trabalhados para maliciosamente produzir um desejo de compra; e do outro, está alguém crédulo, desarmado e sem os necessários parâmetros de julgamento, que tem o seu estado de latência invadido por mensagens de fortes apelos comerciais. É uma relação muito desigual, uma perversão tão grave quanto à pedofilia. A publicidade de produtos e serviços infantis deve ser dirigida aos adultos que cuidam de crianças. Tem um comercial do sabão OMO, que eu acho bem pensado, bem resolvido e, pelo que parece, é dirigido às mães. Ao lembrar que "se sujar faz bem", essa publicidade acaba prestando um serviço pedagógico a muitos adultos desavisados, que higienizam demais a vida infantil.
3. Como a Publicidade e o consumismo afetam a criança?
Na ânsia de aproveitar o poder de influência de compra das crianças, muitas empresas perdem completamente a compostura e por meio da publicidade praticam atos ilícitos de persuasão, como os de estimular a bajulação e falsidade (Chokito), a compra casada (McLanche Feliz) e a se deixar manipular por comandos imperativos (Candide Xuxa). Bombardeadas por esses incitamentos socialmente condenáveis, a criança é exposta à valorização da desonestidade nas relações, da vulnerabilidade cidadã e, acima de tudo, a ser uma consumidora e fazer o papel de promotora do consumo exagerado. Então, os efeitos da publicidade e do consumismo na criança manifestam-se em distorções psicológicas de acentuadas interferências nas dimensões sócio-políticas e culturais. As situações de constrangimento, causadas por esforços de vendas inadequados, também afetam de modo perverso o mundo infantil. No mês passado (abr/2010) a agência de viagens Trip&Fun, de São Paulo, foi bastante criticada pela polêmica promoção: “Se eu não for para a Disney vou ser um Pateta”. E o pior é que esse tipo de promoção, feita dentro das escolas, é um estímulo ao bullying. Além do sentido de “eu vou, você não vai”, esse tipo de propaganda ainda instiga os que viajam a ficar tirando onda com os que ficam, chamando-os de pateta. Mas a sociedade está despertando para esse tipo de violência à dignidade infantil e entidades como o Instituto Alana vêm dando efetivas contribuições nesse sentido.
4. O que é o Instituto Alana e que trabalho desenvolve?
O Alana é uma organização da sociedade civil, criada e presidida pela educadora Ana Lúcia Villela, que atua em quatro eixos associados ao tema da infância: tem o Espaço Alana (1) e o Centro de Formação Alana (2), no Jardim Pantanal, em São Paulo, o Projeto Criança e Consumo (3) e mais recentemente passou a apoiar o Instituto Brincante (4), um recanto de prática e teoria da brasilidade, localizado na Vila Madalena, e que tem como criadores Antônio Nóbrega e Rosane Almeida. Eu arriscaria dizer que a liga de todas essas iniciativas do Instituto Alana é a movimentação da educação e da cultura em favor de uma vida menos consumista e mais socialmente decente.
5. Você é jornalista, escritor, músico e um grande valorizador da cultura popular. A maior parte do trabalho que você desenvolve é em torno da temática da infância. O que você busca através desse trabalho?
Sempre tive a mania de viver, descrever literária e musicalmente a vida e depois juntar tudo novamente para viver além do cotidiano. Mas isso eu trago da minha infância e adolescência vivida no sertão, onde, durante o dia as pessoas trabalhavam na agricultura, na pecuária, no comércio, mas à noite refinavam a dureza da labuta tocando viola, contando histórias ou simplesmente contemplando a silhueta da caatinga à lua cheia. Sem contar com aquelas pessoas que abóiam, tangendo o gado, e as que trabalham cantando nas lavouras. Sou uma dessas pessoas e não é o fato de morar na cidade que me faz esquecer de praticar esses hábitos de plenitude humana. Gosto dos sons da cidade, da vida urbana, de morar em apartamento e tudo isso está incorporado na minha produção autoral. Entendo que os livros e as músicas que tenho feito para as crianças resultem de duas fontes de encantamento: uma, que chamo de paternidade criadora, e a outra, que não sei nem chamar, mas sinto que vem de uma vontade muito grande de contribuir para que essa meninada que está aí seja imaginativa o suficiente para superar a resistência dos adultos na conquista de um mundo mais próximo da metáfora do lavrador (pós-hipermodernidade). Em uma reflexão que publiquei na minha coluna semanal no Diário do Nordeste, explico porque, diferentemente de muitos pensadores que pregam a volta do “jardineiro”, eu defendo a figura do “lavrador” como referência civilizacional a ser alcançada: “O lavrador está mais afeito a respeitar à terra, a cultivar a simplicidade, a organicidade, a fazer a semeadura do que é preciso produzir para viver, a colher os frutos de uma relação integrada com a natureza e do uso da ciência e da tecnologia em favor do usufruto pleno do que a vida nos oferece” (DN, 3/9/2009). É isso o que busco com o meu trabalho.

